Maio 3, 2018 - BPro Cursos

Profissionais que se escondem no modismo

Em todas as áreas existem ótimos, bons e maus profissionais. Isto é normal e nunca será diferente. Para aqueles que nunca se contentam com o que já sabem, esta condição favorece a continuidade de seu crescimento e, por isso, conseguem sempre se manter à frente daqueles que param no tempo e deixam de investir em conhecimento.

É natural que pessoas que correm atrás de um ideal, focando em algo, consigam se diferenciar dos outros e iniciem um processo de melhor entendimento sobre um determinado mercado ou de um assunto específico. Estas pessoas entendem que nunca será possível saber tudo e se aproximam de outros que entendem mais de determinados assuntos, persistindo em seu objetivo de ser o melhor possível no que lhe dá mais prazer e motivação. Bem, o que quero dizer com isso é simples. Por isso, serei objetivo.

Nossa área, a educação física, principalmente no mundo do fitness, está cada vez mais carente de pessoas que acreditam em determinados pontos de vista e defendem com unhas e dentes suas opiniões. Não quero dizer aqui que não podemos mudar de ideia. Pelo contrário. Acredito, que a evolução parte da quebra constante de paradigmas e isso faz com que melhoremos cada vez mais naquilo que acreditamos ser o melhor. Porém, a busca constante por novas alternativas de trabalho com o único objetivo de ascensão profissional dificulta a trajetória nesta evolução, pois facilmente perde-se a referência e começasse do zero. A maior referência que tenho no mundo do treinamento, como alguns já sabem, é o coach Michael Boyle. Referência por ser diferenciado na forma com que se expressa, e como defende seu ponto de vista. Pude ter a oportunidade de participar de dois de seus cursos e em cada um deles, vi a simplicidade nas palavras. Simples, porém, direto. Isso me levou a entender que não precisamos nos esconder atrás de nada quando temos a certeza do que falamos, ou do que ensinamos às pessoas. Em um de seus textos ele fala que muitos treinadores se escondem atrás do treinamento funcional, pois isso facilita suas vidas por não saberem muito sobre treinamento físico de verdade. Ele mesmo diz que quando se passou a utilizar esta nomenclatura (treinamento funcional), tudo parecia perfeito, até cair nas mãos de pessoas erradas. Sinto como se fosse um desabafo, uma forma de tentar entender o que deu errado com um conceito perfeito sobre treinamento, mas que hoje já não se sabe se é tão bom assim.

Comecei a compreender o treinamento funcional há pouco tempo. No início, depois de fazer alguns cursos, percebi que a ideia de tirar as pessoas das máquinas de musculação era uma ótima alternativa para mim, pois eu mesmo não suportava muito a ideia de sentar em uma daquelas máquinas para me exercitar. Porém, com o tempo percebi que o treinamento funcional estava se tornando algo totalmente desvinculado das leis do treinamento, com sequências de exercícios mirabolantes e aleatórios que chamavam a atenção dos alunos, não pela eficiência nos resultados, mas sim por ser “diferente” e “muito legal”. Percebi também, que muitos profissionais iniciaram um processo de migração para estes novos exercícios aleatórios e começaram a se tornar treinadores e personal trainers diferentes perante os olhos do público leigo. Hoje, viajando o Brasil e falando sobre o que é o treinamento funcional para a BPro, percebo que a grande maioria das pessoas que trabalham com esta metodologia, não sabem, com convicção, o que estão fazendo. Não entendem os porquês dos padrões de movimento, das funções articulares, dos exercícios corretivos, das avaliações de movimento, progressões e regressões, etc.

Por que isso acontece?

Para mim é uma autodefesa contra um mercado muito competitivo que está saturado e que quando se enxerga uma brecha, uma nova modalidade, um novo nome, ou novo “qualquer coisa”, tende-se a pular do barco em que está para outro que está passando. E isso dura até quando? Até passar um novo barco que chame mais atenção. Entendo que devemos mudar sim quando há CONVICÇÃO. Quando há identificação sobre algo. Quando alguma coisa realmente muda nossa vida. Mudar por mudar, por parecer que nos dará mais dinheiro é a mesma coisa que querer ter um filho pelo simples fato de acreditar que terá mais uma pessoa que possivelmente lhe cuidará em sua velhice, e não pelo fato de desejar, por amor, esta criança em sua vida. Digo isso porque acredito que nossa profissão é como um filho. Você constrói, alimenta, constrói, busca os erros, reconstrói e assim por diante, até um dia olhar para trás e perceber que tudo valeu a pena e que quem mais aprendeu com tudo isso foi você mesmo. Isso é o que acredito que deveríamos pensar quando escolhemos uma profissão ou um novo caminho dentro dela.

Me referi ao coach Boyle no começo deste artigo, por ter falado sobre treinamento funcional e, como muitos de vocês sabem, ele é considerado uma das maiores referências no assunto. Por este motivo, não enxergo as palavras dele como uma crítica ao termo e sim às pessoas que tentam reinventar o que já existe há muitos anos. Isso acontece também com o CrossFit. Muitos estão se escondendo atrás dessa marca que figura o mundo do fitness. Qualquer um, com certo dinheiro em caixa, pode abrir seu box e se considerar um coach. Mas isso somente não o credencia e a ser um treinador capacitado.

Deixe eu me defender aqui, para que ninguém julgue minhas palavras antes mesmo de chegar ao final do artigo.

A BPro não é uma CrossFit, mas consome a marca. Isso significa que,  nos identificamos com algumas práticas do CrossFit, por outro lado, discordamos de outras. Acredito que o problema não está na marca e sim, na forma com que muitos “pseudo coachs” incorporam o CrossFit nos treinos de seus alunos. Fica fácil entender, que mais uma vez, o problema não está na marca ou no método. Está diretamente relacionado à capacidade do treinador discernir o que seus alunos podem ou não pode fazer, digo, o que devem ou não fazer. Vejo que para muitos, o CrossFit está sendo uma válvula de escape, pois montar treinos aleatórios com o objetivo único de “matar o aluno no cansaço”, não necessita de muito estudo e planejamento. Não sei até onde tudo isso vai. Até onde o termo treinamento funcional se manterá ativo. Também não faço a mínima ideia do que acontecerá com o CrossFit e com seu coachs de curso de final de semana. A única coisa que sei é que devemos trabalhar e estudar muito. Não deixar nunca de conhecer novas metodologias e testá-las para entender o que podemos tirar de bom de cada uma destas formas de treinamento.

Espero, mais uma vez, que nós, educadores físicos, saibamos diferenciar o que é marketing do que é ciência, e assim, possamos tomar as decisões corretas quando tratamos de um filho, no caso, nossa profissão.

Prof. Tiago Proença

Padrões de movimento e suas variantes

Ao pensarmos em treinamento físico, deveríamos relacionar os exercícios que normalmente fazemos, com os padrões de movimento (PM) naturais do ser humano. Essa forma de pensar vem tomando conta das academias e, através do treinamento funcional, vem se popularizando de forma rápida, pois é nítido que as pessoas, de forma geral, já entendem que a qualidade de movimento deveria ser prioridade para se adquirir a tão desejada qualidade de vida. Dessa forma, o treinador tem a obrigação de saber de que maneira os padrões de movimento se relacionam entre si e de como planejar um treinamento que mire, de forma certeira, o objetivo de seus alunos.

Ao entendermos que os PM devem ser prioridade no planejamento das sessões de treino de nossos alunos – principalmente para alunos iniciantes – fica mais fácil colocarmos em prática sequências programadas que visem a integração de movimentos através das funções articulares. Esses movimentos devem ser encaixados dentro de um determinado grupo, pois quando começamos a relacionar exercícios que conhecemos com seu respectivo PM, damos o primeiro passo para programar algo que faça sentido, e tenha um começo, meio e fim.

Um Back Squat – agachamento com barra nas costas –  é de fácil interpretação. Isto é, não há dificuldade em dizer que esse exercício é um Dominante de Joelho (DJ). Um Bench Press é, com toda convicção, um Empurrar Horizontal (EH). Esses exemplos são clássicos, entretanto um Deadlift – Levantamento Terra – que é um Dominante de Quadril (DQ), pode ser interpretado de forma errada se for analisado rapidamente. Para explicar o porquê dessa interpretação, temos que descrever o que é um DJ e um DQ. O Padrão de Movimento de DJ é caracterizado pela flexão acentuada das articulações do tornozelo, joelho e quadril. Para deixar ainda mais claro, podemos dizer que a tíbia se inclina anteriormente alinhando-se com o tronco (Figura 1). Agora, se analisarmos um Low Bar Back Squat e um Front Squat, veremos que ambos são DJ, porém as angulações articulares se diferenciam um do outro. Isso significa que a ênfase muscular é modificada, mas o padrão se mantém o mesmo. Isto é, ambos são exercícios com dominância de joelho. No caso dos exercícios de dominância de quadril, vemos algumas questões que fizeram com que se criassem uma categoria híbrida. Esse termo é apenas para dizer que um exercício pode ser direcionado tanto para um padrão como para outro. O melhor exemplo que vejo diariamente na academia é o Deadlift (Levantamento Terra) com a barra hexagonal. Como podemos ver na figura 2, o posicionamento das mãos é na linha do tronco. Isso facilita o posicionamento mais “sentado” fazendo com que a interpretação seja dificultada. A ideia é que a saída – fase concêntrica – seja realizada com os ombros acima da linha do quadril e o quadril acima da linha dos joelhos, porém esse posicionamento pode variar. Entretanto, como regra geral, é assim que se caracteriza um DQ. Agora, se o aluno ficar com o tronco mais perpendicular ao chão, haverá mais dorsiflexão e a linha do quadril irá se aproximar da linha do joelho, quase caracterizando um DJ. Eu disse quase! Essa análise deve ser feita pelo treinador, pois dependerá muito das características estruturais de cada indivíduo e que ênfase o treinador deseja dar àquele exercício.

O mais importante é entender como a relação entre as articulações podem mudar consideravelmente o objetivo de um exercício e como pequenos ajustes podem facilitar a execução por parte do aluno que muitas vezes escuta que “assim” é certo e “assim” é errado.

Um exercício mental,  importante a se fazer por parte de nós treinadores, é pensar em exercícios que possam mudar suas características com apenas alguns pequenos ajustes. Esse treino faz com que melhoremos a organização dos treinos de nossos alunos, pois, dessa forma, temos a capacidade de decidir as ênfases musculares de forma mais clara e com menos margem de erro.

Professor Tiago Proença – Fundador e Coordenador Técnico Geral BPro

Preparação Física e Preparação Técnica

No esporte de competição, além do treinamento técnico, o treinamento físico vem sendo considerado peça fundamental no resultado final de atletas.

É evidente que todo o processo de desenvolvimento técnico parte de valências físicas treináveis como força, coordenação motora, potência, resistência, entre outras. Porém, muitos ainda acreditam que o treinamento físico é dispensável e esse pensamento reflete no momento mais crucial na vida de um atleta: ser um vencedor ou não.

A preparação física tem como objetivo principal preparar o atleta para uma rotina de treinos técnicos sem lesões. É fundamental que todos os envolvidos estejam cientes que o corpo necessita de uma estrutura sólida e consistente para que tenha uma jornada de treinos mais longa e eficiente.

Pensando assim, é inevitável que jovens atletas estejam preparados fisicamente para uma rotina de treinos que irá exigir 100% do seu físico. É de fundamental importância que as estruturas ósseas, musculares e articulares sejam preparadas para a sobrecarga que virá com o tempo e, é por isso, que crianças e adolescentes deveriam ser orientados a pensar na não lesão e isso só acontecerá se forem introduzidas o mais rápido possível no treinamento físico.

Quando uma programação de treinamento é desenvolvida, tanto técnico quanto preparador físico devem, em conjunto, elaborar um sistema que abranja tanto a não-lesão como a busca do melhor rendimento possível para aquele atleta. Este trabalho deve ser gradual e seguro para que tenhamos o melhor resultado possível.

Na foto, os atletas de patinação artística Arthur Alcorte e Valentina Nardin da AABB Porto Alegre/RS. A equipe técnica de patinação do clube, esta cada vez mais consciente que o treinamento físico é peça chave no sucesso de seus atletas. Nossa ideia é nos aproximarmos cada vez mais da realidade dos grandes campeões e temos certeza que estamos no caminho certo.

Prof. Tiago Proença